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A Hora da Estrela
Clarice Lispector
1977 · 90 págs.

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A Hora da Estrela

de Clarice Lispector
Ano1977
Páginas90
Língua orig.Português
Leitura~3h
LicençaDireitos de autor
Tempo de leitura estimado
A velocidade média · 90 páginas
3h
aprox.

Sobre o livro

A Hora da Estrela foi publicado por Clarice Lispector em 1977, no mesmo ano em que morreu, e é o último romance que concluiu. O livro tem uma estrutura autoconscientemente artificial: o narrador Rodrigo S.M. declara-se responsável pela história de Macabéa, jovem nordestina pobre que vive no Rio de Janeiro como datilógrafa sem qualificações, sem belleza convencional, sem consciência clara da sua própria marginalidade. Rodrigo é tudo o que Macabéa não é: homem, culto, da classe média, consciente da sua existência como problema. A tensão entre o narrador e a personagem que ele não consegue apropriar nem compreender totalmente é o mecanismo central de um livro que tem menos de cem páginas mas uma densidade filosófica que não se esgota na primeira leitura.

Temáticas e significado

A questão central de A Hora da Estrela é se é possível escrever sobre alguém sem o violentar, se a representação literária de um ser humano marginalizado é já uma forma de apropriação que pertence ao mesmo sistema que produz a marginalidade. Rodrigo não resolve esta questão: torna-a visível a cada página, declarando a sua inadequação para a tarefa que está a executar e executando-a mesmo assim. Macabéa é uma personagem que existe no texto apesar do narrador e não graças a ele: a sua felicidade incompreensível diante de fragmentos de informação inútil, a sua capacidade de viver numa pobreza material absoluta sem nenhum dos recursos interiores que a literatura habitual confere aos pobres para os tornar simpáticos, é o elemento que escapa ao controlo narrativo de Rodrigo e que torna o livro irredutível à intenção declarada do seu narrador.

Por que ler hoje?

A Hora da Estrela é o livro de Clarice Lispector que mais diretamente conecta a sua exploração da subjetividade interior com o problema político da invisibilidade social. Clarice escreveu sobre consciência e sobre o abismo entre a palavra e a experiência ao longo de toda a obra, mas neste livro final essas questões tocam o concreto histórico de uma forma que os romances anteriores não tinham atingido. O livro tem noventa páginas que se podem ler em duas horas e que deixam questões que levam semanas a assentar: este desequilíbrio entre a brevidade da leitura e a extensão da ressonância é uma das marcas da ficção mais concentrada.

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