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Eurico, o Presbítero foi publicado em 1844 por Alexandre Herculano e é o romance histórico mais importante da literatura portuguesa do século XIX. A ação decorre no século VIII, nos anos imediatamente anteriores e posteriores à invasão árabe da Península Ibérica em 711. Eurico é um sacerdote visigodo que renunciou ao amor de Hermengarda para cumprir os votos eclesiásticos, mas que nunca conseguiu extinguir esse amor. Quando a Hispânia visigoda é varrida pelas tropas de Tárique, Eurico combate como guerreiro sob um elmo que nunca retira, tornando-se uma figura lendária cujo rosto ninguém conhece. A descoberta final da sua identidade, e o reencontro com Hermengarda em circunstâncias que tornam impossível qualquer futuro, fecha um romance que Herculano concebeu como tragédia histórica e não como aventura.
Herculano era historiador antes de ser romancista, e esta dupla formação é visível em cada página do livro: as cenas de batalha são documentadas com precisão, as referências à organização social e religiosa dos visigodos são baseadas em fontes que Herculano conhecia diretamente, e os diálogos refletem as categorias mentais do período e não as do século XIX. Esta fidelidade histórica não torna o romance árido: pelo contrário, dá-lhe uma verossimilhança que os romances históricos que sacrificam a exatidão ao espetáculo não têm.
O conflito central do romance não é entre cristãos e muçulmanos: é entre o amor e o dever, entre o que Eurico quer ser e o que prometeu ser. Esta é uma tensão que o romantismo europeu explorou em múltiplas variações, mas Herculano dá-lhe uma especificidade histórica que impede a abstração: Eurico não luta contra uma imposição abstrata mas contra os votos que fez livremente, o que torna a sua tragédia mais complexa do que a do amante simplesmente impossibilitado por forças externas.
A queda da Hispânia visigoda é tratada com uma melancolia que vai além do episódio histórico: Herculano estava a escrever sobre uma civilização que desaparece, e a sua própria geração tinha vivido a instabilidade das guerras liberais e a sensação de que o Portugal que conhecia estava também a transformar-se irreversivelmente. O lamento pela Hispânia perdida tem uma dimensão contemporânea que os leitores de 1844 reconheciam sem precisar de a explicitar.
Eurico, o Presbítero é o texto que mais rigorosamente realizou o projeto do romance histórico à portuguesa: não a imitação de Scott mas uma tentativa de criar uma forma narrativa que fosse simultaneamente fiel ao passado e relevante para o presente. A prosa de Herculano, mais solene e menos irónica do que a de Garrett ou de Eça, tem uma consistência de tom que faz do livro uma experiência de leitura coerente e imersiva. Para quem quer conhecer como a literatura portuguesa tratou a questão da identidade histórica ibérica antes do século XX, este romance é o ponto de partida indispensável.
Stendhal usava o pseudónimo de um crítico de arte alemão — o seu verdadeiro nome era Marie-Henri Beyle.