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O Livro do Desassossego é uma obra póstuma de Fernando Pessoa publicada pela primeira vez em 1982, quarenta e sete anos após a morte do autor, a partir dos fragmentos encontrados na famosa arca. Atribuído ao semiheterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros num escritório de Lisboa, o livro não tem enredo nem estrutura narrativa convencional: é uma acumulação de fragmentos de prosa poética, meditações, aforismos e descrições que Pessoa escreveu ao longo de décadas sem nunca organizar para publicação. A figura de Soares é deliberadamente medíocre na sua posição social, alguém que vive numa pensão da Baixa lisboeta e cujo universo físico se reduz ao escritório, aos cafés e às ruas da cidade, mas cuja vida interior tem uma intensidade que transborda de cada parágrafo.
O Desassossego é, entre outras coisas, o livro em que Pessoa explorou com maior consistência a questão da identidade como ficção. Soares não tem uma identidade estável porque Pessoa considerava a identidade estável uma simplificação da experiência: somos todos personagens que interpretamos a nós próprios, e a diferença entre Soares e os outros heterónimos é que Soares tem consciência desta ficcionalidade sem nunca conseguir transcendê-la. Os fragmentos sobre Lisboa têm uma qualidade de atenção ao detalhe urbano que os torna alguns dos mais belos textos sobre a cidade escritos em português, mas esta beleza está sempre contaminada por uma melancolia estrutural: Lisboa é bela precisamente porque é o lugar onde nada acontece, onde a história passou sem deixar nada a não ser a consciência de que passou. Esta visão da capital como ruína de impérios tem uma ressonância que vai muito além do contexto histórico específico de Pessoa.
O Livro do Desassossego resiste à leitura linear e recompensa a leitura fragmentada, o que o torna um texto particularmente adaptado ao modo de atenção contemporâneo sem que isso seja um mérito acidental: Pessoa escreveu em fragmentos porque acreditava que a experiência não tem continuidade orgânica e que qualquer narrativa coerente é uma impostura. Esta convicção, que a teoria literária posterior formalizaria de várias maneiras, encontra no Desassossego a sua expressão mais honesta na literatura portuguesa, a de alguém que não finge que a escrita resolve o que a consciência não consegue resolver.
Alexandre Dumas Filho era filho ilegítimo do autor de Os Três Mosqueteiros.