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LerGratis · Russo
Notas do Subsolo
Fiódor Dostoiévski
1864 · 180 págs.

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Notas do Subsolo

de Fiódor Dostoiévski
Ano1864
Páginas180
Língua orig.Russo
GéneroNovela
Leitura~5h
LicençaDomínio público
Tempo de leitura estimado
A velocidade média · 180 páginas
5h
aprox.

Sobre o livro

Notas do Subsolo foi publicado em 1864 e é o texto em que Dostoiévski encontrou a forma que todos os seus grandes romances posteriores pressupõem. A obra divide-se em duas partes: a primeira, O Subsolo, é o monólogo de um funcionário anónimo de São Petersburgo que faz uma série de objeções filosóficas ao racionalismo utilitarista e à crença no progresso como garantia de felicidade; a segunda, A propósito da neve derretida, é um relato autobiográfico de episódios da vida desse mesmo funcionário vinte anos antes, quando tinha ainda vinte e quatro anos. O homem do subsolo é inteligente, rancoroso, contraditório e consciente das suas próprias contradições: sabe que os seus comportamentos são autodestrutivos e não consegue deixar de os repetir.

Dostoiévski escreveu a obra como resposta direta a O que fazer? de Tchernichévski, romance de 1863 que propunha um modelo de sociedade racional em que os homens agiriam sempre segundo o seu interesse iluminado. O homem do subsolo é a refutação literária desta tese: é alguém que age contra o seu próprio interesse por razões que a razão não consegue explicar, e que faz isso não por estupidez mas por uma necessidade psicológica que o racionalismo ignora.

Temáticas e significado

O argumento central do homem do subsolo é que a liberdade humana é irredutível a qualquer sistema de bem-estar ou de interesse: os homens preferirão fazer o que querem, mesmo que seja destrutivo, a fazer o que um cálculo racional lhes indicaria como melhor. Esta tese, que Dostoiévski formula com uma intensidade quase violenta, é o núcleo do que a filosofia do século XX chamou existencialismo, e Sartre, Camus e Nietzsche reconheceram explicitamente a sua dívida a este texto.

A segunda parte, o relato dos episódios com o oficial que o humilha sem o reconhecer, com os companheiros de escola que o toleram com desdém, e com Liza, a jovem prostituta a quem prega um sermão sobre a redenção e depois trata com crueldade, é mais perturbante do que o monólogo filosófico. É nessa parte que o leitor vê como a teoria do subsolo se traduz em comportamento, e a tradução é sempre mais dolorosa do que o argumento abstrato.

Por que ler hoje?

Notas do Subsolo é o texto mais curto e mais denso que Dostoiévski escreveu, e é o ponto de entrada mais direto para o universo filosófico que Os Irmãos Karamázov e Crime e Castigo desenvolvem em escala épica. Quem lê Notas do Subsolo antes dos romances longos descobre os pressupostos que esses romances pressupõem: a ideia de que a psicologia humana não obedece à lógica do interesse, que a liberdade inclui a liberdade de se autodestruir, e que qualquer utopia que não leve isto em conta é uma utopia para uma espécie que não existe.

O estilo fragmentado e contraditório das Notas, em que o narrador avança uma posição e a refuta no parágrafo seguinte, não é incoerência: é a forma que Dostoiévski encontrou para representar uma consciência que não consegue fixar-se em nenhuma posição estável porque a estabilidade lhe parece uma mentira. Esta instabilidade formal é o argumento do texto, e qualquer edição que tente suavizá-la, simplificando as contradições ou reduzindo os parênteses, perde o que o texto tem de específico e insubstituível.

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