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Os Maias foi publicado em 1888 e é considerado o romance mais ambicioso de Eça de Queirós e um dos pilares do realismo literário português. O livro narra a história de três gerações da família Maia, centrada em Carlos da Maia, jovem médico de Lisboa que vive sem propósito definido e que se apaixona por uma mulher, Maria Eduarda, que mais tarde descobrirá ser sua irmã. Eça trabalhou no romance durante dez anos, e o resultado tem uma arquitetura de uma complexidade que não tem paralelo na ficção portuguesa do século XIX: a intriga central de incesto é enquadrada num panorama da sociedade lisboeta de finais de Oitocentos que inclui o jornalismo, a diplomacia, o dandismo, a vida política e os salões literários. O tom é de uma ironia sistemática que não abandona o texto em nenhuma das suas oitocentas páginas.
O título do romance é o da família, mas o verdadeiro protagonista coletivo é a geração de Carlos e dos seus amigos, Ega e Craft, que representa a intelligentsia portuguesa de finais do século XIX: cosmopolita na referência, provinciana na prática, entusiasta nos projetos que nunca executa, ironista perante tudo o que levaria à ação. O tema central não é o incesto, que funciona como catalisador mas não como objeto de análise moral, mas a incapacidade de uma classe dirigente de transformar o seu saber e o seu talento em força histórica. Afonso da Maia, o avô, é a geração que acreditou em alguma coisa e perdeu; Carlos é a geração que sabe tudo e não acredita em nada e por isso não age. Eça diagnosticou com este romance um traço da identidade cultural portuguesa que os críticos continuaram a debater ao longo de todo o século XX.
Os Maias é o romance português que mais recompensa a releitura: a sua estrutura é densa o suficiente para que a segunda leitura descubra elementos que a primeira não alcançou. A ironia de Eça, que nunca se declara mas se instala em cada escolha de vocabulário e em cada gesto descrito, é uma das realizações estilísticas mais consistentes da ficção oitocentista europeia. O diagnóstico que o romance faz da relação entre cultura e impotência política não precisa de ser transportado analogicamente para o presente: apresenta-se diretamente como um padrão de comportamento que qualquer leitor português reconhece na vida pública contemporânea.
Stendhal usava o pseudónimo de um crítico de arte alemão — o seu verdadeiro nome era Marie-Henri Beyle.