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A Cidade e as Serras
Eça de Queirós
1901 · 250 págs.

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A Cidade e as Serras

de Eça de Queirós
Ano1901
Páginas250
Língua orig.Português
GéneroRomance
Leitura~7h
LicençaDomínio público
Tempo de leitura estimado
A velocidade média · 250 páginas
7h
aprox.

Sobre o livro

A Cidade e as Serras foi publicado postumamente em 1901, um ano após a morte de Eça de Queirós, a partir de um manuscrito que o autor estava ainda a rever. É o romance mais sereno de Eça, escrito depois de duas décadas de sátira sistemática, e a sua serenidade não é resignação mas uma forma de chegada a uma conclusão que os romances anteriores prepararam sem enunciar. Jacinto, jovem aristocrata português herdeiro de uma fortuna imensa, vive em Paris no número 202 dos Campos Elísios rodeado de toda a tecnologia e de todo o conforto que a civilização oitocentista pode oferecer. O narrador, Zé Fernandes, amigo de infância, observa a sua crescente melancolia e a sua incapacidade de encontrar satisfação em tudo o que possui. A viagem forçada à quinta ancestral em Tormes, nas serras transmontanas, transforma Jacinto, que descobre na vida rural e no contacto com a terra uma plenitude que Paris não podia dar.

O romance tem uma estrutura binária simples que Eça complica com a ironia habitual: não está a celebrar ingenuamente o campo em oposição à cidade, está a descrever como um indivíduo específico, com um passado específico e com um conjunto de necessidades específicas, encontra um modo de viver que lhe convém. A paisagem transmontana é descrita com uma atenção ao detalhe sensorial que não é pitoresca mas exata: Eça conhecia aquela região e não precisava de a idealizar.

Temáticas e significado

A Cidade e as Serras pode ser lido como sátira ao esteticismo e ao cosmopolitismo vazio, como celebração do regresso às origens, ou como crítica à crença oitocentista no progresso tecnológico como garantia de felicidade. As três leituras estão no texto e não se excluem. Jacinto acumula enciclopédias, fonógrafos, aparelhos de telefonia, livros raros, e toda esta acumulação não o torna mais feliz nem mais capaz de pensar. Eça não diz que a tecnologia é má: diz que a relação de Jacinto com a tecnologia é a de alguém que confunde a posse dos instrumentos com a finalidade a que servem.

O contraste entre Paris e Tormes não é o contraste entre o artificial e o natural: é o contraste entre um ambiente que produziu em Jacinto uma incapacidade de agir e um ambiente que lhe exige ação concreta, reparar uma levada, resolver uma disputa entre aldeões, plantar e colher. Esta dimensão ativa da vida rural é o que Eça sublinha, e a felicidade que Jacinto encontra não é contemplativa mas prática. É possível ler nisto uma resposta implícita ao decadentismo finissecular com que o romance dialoga, sem o nomear, ao longo de toda a primeira parte.

Por que ler hoje?

A Cidade e as Serras é o romance de Eça que menos intimidante parece para quem não conhece a sua obra: mais curto do que Os Maias e mais luminoso do que O Crime do Padre Amaro, oferece a prosa de Eça na sua forma mais depurada, sem a densidade sociológica dos romances do período realista. A questão que coloca, sobre como viver numa época em que a abundância de meios não garante a clareza dos fins, é uma das questões que o século XXI formulou em termos diferentes mas não resolveu. Quem ler o romance como documento de uma crise de sentido que não é específica do século XIX encontrará nele algo que continua a funcionar sem precisar de ser atualizado.

📚 Sabia que…?

Machado de Assis fundou a Academia Brasileira de Letras em 1897 e foi o seu primeiro presidente.