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Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
1881 · 280 págs.

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Memórias Póstumas de Brás Cubas

de Machado de Assis
Ano1881
Páginas280
Língua orig.Português
GéneroRomance
Leitura~8h
LicençaDomínio público
Tempo de leitura estimado
A velocidade média · 280 páginas
8h
aprox.

Sobre o livro

Memórias Póstumas de Brás Cubas foi publicado em folhetins na Revista Brasileira em 1880 e em volume em 1881. O romance é narrado por Brás Cubas depois da sua própria morte: o narrador apresenta-se como um defunto-autor, o que lhe permite uma liberdade de perspetiva que Machado de Assis usa sistematicamente para subverter as convenções do romance realista que eram dominantes na época. Brás Cubas é um homem da alta burguesia do Rio de Janeiro do século XIX que não realizou nada de significativo em vida e que, liberto da necessidade de aparecer bem aos olhos dos vivos, conta a sua história com uma franqueza que é ao mesmo tempo cómica e cruel. O romance foi o ponto de chegada de um processo de transformação que Machado tinha iniciado nos seus primeiros romances, e marcou a divisão canónica entre a primeira fase, considerada mais sentimental, e a segunda fase, a que os críticos chamam realista ou pessimista. A influência de Sterne e de Xavier de Maistre é visível na estrutura fragmentada e nos capítulos brevíssimos, alguns com uma única frase, mas Machado usa esses modelos para fins que os seus antecessores não tinham previsto.

Temáticas e significado

O centro filosófico do romance é a teoria do Humanitismo, sistema filosófico absurdo inventado pela personagem Quincas Borba, que justifica qualquer coisa em nome da sobrevivência do Humanitas, entidade abstrata que representa a espécie humana. Esta paródia das grandes ideologias positivistas e evolucionistas do século XIX não é um parêntesis cómico: é o instrumento com que Machado desmonta a autocomplacência das classes dominantes brasileiras, que utilizavam vocabulário progressista para justificar hierarquias sociais imóveis. A escravidão não aparece nomeada no primeiro plano do romance, mas está presente em cada detalhe da vida de Brás Cubas: os escravos que aparecem no texto são parte da paisagem natural da sua existência, o que é precisamente o mecanismo que Machado está a analisar. O último capítulo, em que Brás Cubas faz a contagem das coisas que não deve à vida, é um dos finais mais perturbantes da ficção oitocentista e resume a perspetiva moral do narrador com uma concisão que não tem equivalente no romance realista europeu da mesma época.

Por que ler hoje?

Memórias Póstumas de Brás Cubas é o texto que colocou Machado de Assis na conversa das grandes literaturas mundiais, e a razão pela qual essa conversa continua é a de que o romance diagnosticou, com instrumentos formais específicos, uma patologia social que não desapareceu com o século XIX. A frivolidade da elite, a indiferença estrutural ao sofrimento alheio, a capacidade de produzir discurso filosófico sofisticado enquanto se perpetuam desigualdades brutais: estes são os temas que Brás Cubas descreve a partir de dentro, com o sorriso de quem já não tem nada a perder ao ser honesto.

📚 Sabia que…?

Alexandre Herculano foi também historiador — documentou a história medieval portuguesa em quatro volumes.