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Dom Casmurro foi publicado em 1899 e é o romance de Machado de Assis que mais tem ocupado a crítica literária brasileira e internacional. Bentinho, que se autoatribui o título do livro, narra a sua própria história: o amor de juventude por Capitu, a pressão familiar para entrar no seminário, o casamento, a suspeita de infidelidade, a destruição da relação. A narração é feita em retrospetiva, por um homem de meia-idade que reconstruiu a casa onde cresceu para recuperar algo que perdeu, e que reconta a história com a consciência de que esse reconto é sempre uma interpretação. Machado de Assis publicou Dom Casmurro trinta e dois anos depois de Ressurreição, o seu primeiro romance, e o intervalo mostra-se em cada página: a prosa é mais controlada, a ironia mais precisa, e o narrador não fiável, que aqui atinge o seu desenvolvimento mais pleno, transforma o leitor num participante ativo no processo de avaliação do que realmente aconteceu.
A pergunta sobre se Capitu traiu ou não traiu Bentinho é a mais famosa da literatura brasileira, e a sua persistência diz algo importante sobre o modo como o romance foi construído: Machado não deu resposta porque a questão do ponto de vista do narrador não é resolvível dentro do texto. O que o romance mostra com clareza não é a culpa ou inocência de Capitu, mas o modo como Bentinho constrói retrospetivamente uma narrativa que justifique a decisão que tomou. Este mecanismo, o da memória como instrumento de autoabsolvição, é o tema central do livro, e Machado executa-o com uma elegância que dificilmente se percebe na primeira leitura: é preciso reler para notar os momentos em que a narração de Bentinho se contradiz ou em que omite informação que seria relevante. Capitu, que só existe através da perspetiva do narrador, emerge como personagem mais inteligente e mais viva do que aquele que a descreve, o que é um dos efeitos mais calculados de todo o romance.
Dom Casmurro é um dos textos mais rigorosos que existem sobre o modo como a memória seleciona e deforma os factos em função das necessidades emocionais do presente. A psicologia cognitiva contemporânea tem produzido investigação abundante sobre os mecanismos de reescrita da memória autobiográfica, e quem lê Dom Casmurro depois de conhecer esses estudos percebe que Machado de Assis tinha descrito, com instrumentos exclusivamente literários, o mesmo fenómeno que os laboratórios documentariam um século depois. Isso não é coincidência: é o resultado de uma observação humana suficientemente fina para antecipar aquilo que a ciência viria a confirmar.
Almeida Garrett escreveu Viagens na Minha Terra para criar uma nova prosa literária em português.