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A Dama das Camélias foi publicado em 1848 por Alexandre Dumas Filho, que tinha então vinte e três anos, e é um romance de bases autobiográficas: Dumas tinha sido amante de Marie Duplessis, cortesã parisiense que morreu de tuberculose em 1847 com apenas vinte e três anos, e escreveu o livro poucos meses depois da sua morte. Marguerite Gautier, a protagonista, é uma cortesã célebre em Paris que se apaixona por Armand Duval, jovem de família burguesa que a ama sem reservas. O amor é correspondido, mas o pai de Armand intervém e convence Marguerite a abandonar o filho para não arruinar a reputação da família. Marguerite obedece, inventa uma traição para que Armand não soubesse o verdadeiro motivo, adoece e morre enquanto Armand, que não sabe a verdade, a insulta publicamente.
A estrutura narrativa usa um narrador que descobre a história nos diários de Marguerite depois da sua morte, o que dá ao texto uma dupla temporalidade: sabemos desde o início que Marguerite morreu, e a leitura dos diários revela o que realmente aconteceu por trás do que os contemporâneos viram. Esta construção, que combina o relato na terceira pessoa com os documentos pessoais, antecipa procedimentos que o romance epistolar e psicológico do final do século XIX desenvolveria com maior sofisticação.
A Dama das Camélias é o romance que mais influenciou a representação da cortesã de coração de ouro na cultura ocidental: Marguerite é o modelo de que derivam a Violetta de Verdi em La Traviata, a Mimi de Puccini em La Bohème, e dezenas de outras figuras literárias e operáticas do século XIX e do início do XX. O que o romance propõe é a possibilidade de uma mulher que vive fora das convenções morais da sociedade burguesa ser moralmente superior aos que a julgam: Marguerite sacrifica a sua própria felicidade para proteger uma família que nunca a reconhecerá.
O pai de Armand, que convence Marguerite a abandonar o filho sem lhe contar a verdade, é uma das figuras moralmente mais ambíguas do romance: age segundo a lógica da família e da reputação que a sua sociedade lhe impõe, e não é um vilão no sentido convencional, mas a sua intervenção destrói a única pessoa que não tinha obrigação de sacrificar nada e que sacrificou tudo. Dumas não condena o pai: descreve o mecanismo.
A Dama das Camélias é frequentemente descartada como sentimentalismo do século XIX, o que é uma leitura que desconhece o que o sentimentalismo desta época estava a fazer. Dumas escrevia num contexto em que a exclusão social das mulheres que tinham vivido fora da moralidade convencional era completa e irrevogável, e o seu romance é uma das primeiras tentativas da ficção francesa de mostrar essa exclusão como injusta sem a romantizar completamente. A tensão entre o sentimento e a estrutura social que o impede é o que torna o texto mais complexo do que a sua reputação de melodrama sugere.
Dickens começou a trabalhar numa fábrica aos doze anos depois de o pai ser preso por dívidas.