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A Dama do Cachorrinho foi publicado em 1899 e é geralmente considerado o melhor conto de Anton Tchekhov. Dmitri Gurov, funcionário de banco moscovita de meia-idade, casado e infeliz no casamento, passa férias em Yalta onde conhece Anna Sergeyevna, jovem casada que passeava com um cão branco. O que começa como uma aventura de verão sem consequências transforma-se, ao longo de meses e depois de anos, numa relação que nenhum dos dois consegue abandonar e que nenhum dos dois consegue tornar pública. O conto termina no momento em que os dois reconhecem que a situação não tem solução visível mas que a relação continuará mesmo assim, porque é a única coisa real que cada um tem.
Tchekhov tinha já publicado centenas de contos quando escreveu A Dama do Cachorrinho, e o texto beneficia de toda essa experiência: cada frase faz trabalho, nada é excessivo, e os momentos de maior intensidade emocional são tratados com a menor quantidade de palavras possível. O conto tem cerca de oito mil palavras e contém mais substância psicológica do que muitos romances de quinhentas páginas.
O que distingue A Dama do Cachorrinho da ficção sobre adultério que o precede, de Madame Bovary a Anna Karênina, é que Tchekhov não pune os amantes nem os absolve: descreve como dois adultos se apaixonam sem o querer e ficam presos numa situação sem saída sem que nenhum deles seja particularmente culpado de nada. Gurov é banal e egoísta nas cenas iniciais, mas transforma-se à medida que a relação com Anna se aprofunda: no final é alguém que reconhece, pela primeira vez na vida, que o que sente é real e importante. Esta transformação é descrita sem melodrama.
O uso do detalhe concreto como instrumento de significação é o procedimento técnico mais visível do conto. O cachorrinho branco, a melancia que Gurov come na sua hora de maior indiferença, o vestido cinzento de Anna: estes detalhes não são descrição de ambiente, são os materiais com que Tchekhov constrói a textura de uma experiência que o comentário direto não conseguiria transmitir. Hemingway declarou que aprendeu mais sobre a escrita de ficção com Tchekhov do que com qualquer outro escritor, e A Dama do Cachorrinho é o texto em que essa influência é mais visível.
A Dama do Cachorrinho é frequentemente citado como o exemplo mais perfeito do conto moderno, o texto que estabeleceu a norma para o que o conto pode ser quando funciona ao mais alto nível: concentração, ambiguidade, ausência de conclusão moral explícita, e uma ressonância emocional que cresce depois de o texto ter terminado. Quem quer perceber o que torna a ficção breve diferente da ficção longa, e o que o conto pode fazer que o romance não consegue, tem neste texto um modelo que não foi superado.
Balzac bebia cinquenta xícaras de café por dia durante os períodos de escrita intensa.