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A Metamorfose foi publicada por Franz Kafka em 1915, e a sua primeira frase gerou um século de discussões sobre a tradução exata que merece: Ao acordar, Gregor Samsa encontrou-se transformado na sua cama num gigantesco inseto imundo. Kafka opunha-se a qualquer ilustração do inseto na capa do livro. Gregor Samsa, caixeiro-viajante que sustentava economicamente toda a família, perde imediatamente após a metamorfose a sua função económica, e o conto acompanha as semanas em que a família se adapta ao seu desaparecimento efetivo, até à sua morte por esgotamento e abandono. Kafka deixou instrução a Max Brod de destruir todos os seus manuscritos após a morte: Brod não o fez, e assim ficámos com um dos textos mais lidos do século XX.
A metamorfose de Gregor não é explicada, e esta ausência de explicação é constitutiva do texto: não é uma lacuna mas a condição que torna possível a análise. O que interessa a Kafka é o que acontece depois: como uma família que funcionou durante anos com Gregor como eixo económico reorganiza o seu funcionamento, e como essa reorganização revela que Gregor nunca foi percebido como pessoa mas como recurso. A irmã Grete, que inicialmente cuida de Gregor com devoção, pronuncia no final a frase decisiva: é preciso livrarmo-nos dele. Kafka descreve esta progressão com uma neutralidade clínica que foge do sentimentalismo e da indignação moral explícita: o texto não diz que é injusto, diz que é assim, e essa neutralidade é mais perturbante do que qualquer ênfase.
A Metamorfose é o texto de Kafka mais acessível, o que explica que seja também o mais interpretado: leituras psicanalíticas, marxistas, existencialistas, biográficas acumulam-se sem o esgotar. O que resiste a todas estas reduções é a precisão narrativa do mecanismo que descreve: como a perda da função económica produz a perda da identidade pessoal, como a linguagem com que a família fala de Gregor muda progressivamente do que se reserva a uma pessoa para o que se reserva a um problema a gerir. Esta transformação do sujeito em objeto através de mudanças graduais e aparentemente banais na linguagem e no comportamento quotidiano é uma dinâmica que o século XX reconheceu em contextos de violência institucional em escalas muito mais amplas do que a doméstica.
Almeida Garrett escreveu Viagens na Minha Terra para criar uma nova prosa literária em português.