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A Ilíada, atribuída a Homero e composta provavelmente entre o século IX e o VII antes de Cristo, narra cinquenta e um dias do décimo ano da guerra de Troia, concentrando-se na cólera de Aquiles e nas suas consequências. O poema não descreve nem o início nem o fim da guerra: começa com a disputa entre Aquiles e Agamémnon pela posse de uma escrava, Criseída, e encerra-se com os funerais de Heitor. Esta concentração num segmento breve e específico, com muitos eventos anteriores e posteriores evocados mas não narrados, é uma escolha compositiva que produz uma intensidade dramática considerável: o ouvinte sabe já como vai terminar, e este saber transforma cada cena numa forma de espera trágica. A língua homérica é formuláica: epítetos fixos, cenas típicas, repetições que na tradição oral tinham função mnemónica mas que no texto escrito produzem um efeito de ritmo e de solenidade.
O traço mais surpreendente da Ilíada é o tratamento da morte. Cada guerreiro que cai no poema recebe uma individualização mínima: o nome, o pai, o lugar de origem, por vezes um detalhe biográfico brevíssimo antes do fim. Este catálogo fúnebre, repetido para centenas de mortos, transforma a epopeia heroica em algo muito diferente da exaltação da glória militar: é uma contabilidade do luto. As cenas entre Heitor e Andrómaca no sexto canto, e entre Príamo e Aquiles no vigésimo quarto, dois inimigos que se sentam juntos e choram, são os momentos em que o poema desafia abertamente a lógica da glória militar e mostra que o custo dessa glória recai sobre pessoas que não a escolheram.
A Ilíada foi relida como texto pacifista e como texto militarista, como épica da glória e como análise do seu fracasso humano: esta ambivalência é precisamente o que a mantém viva. Weil, no seu ensaio dos anos quarenta, via na Ilíada o texto que descreve com maior precisão a força como mecanismo que transforma os homens em objetos, tanto quem a sofre como quem a exerce. Essa leitura não esgota o poema, mas capta algo real: Aquiles, o guerreiro mais forte, é também a personagem mais paralisada pela sua própria escolha de uma vida breve e gloriosa. Quem escolhe ler a Ilíada numa boa tradução portuguesa descobre que a distância de três mil anos não atenua o reconhecimento deste dilema.
Camões escreveu partes de Os Lusíadas durante o naufrágio no delta do Mekong.