✓ 100% legal e gratuito: Domínio público. Fonte: Project Gutenberg. Sem registo.
Esta obra pertence ao domínio público — os direitos de autor expiraram. Fonte: Project Gutenberg. Descarregar é 100% legal e sem registo.
A Odisseia, atribuída a Homero e composta presumivelmente depois da Ilíada, narra a viagem de Ulisses de Troia a Ítaca, dez anos de peripécias que o levam através da ilha do Ciclope Polifemo, da ilha da feiticeira Circe, do reino dos mortos, do perigo das Sereias, de Cila e Caríbdis, e finalmente a Ítaca, onde o esperam a mulher Penélope assediada pelos Pretendentes e o filho Telémaco que nunca conheceu verdadeiramente o pai. A estrutura narrativa é mais complexa do que a da Ilíada: os relatos de Ulisses na corte dos Feaces, a parte mais conhecida do poema, com o Ciclope, Circe e o reino dos mortos, são uma autobiografia inserida no relato principal, e esta técnica do narrador interno produz um efeito de distância reflexiva que na Ilíada não existe.
A Odisseia é construída em torno da pergunta sobre o que significa regressar. Ulisses está ausente de Ítaca há vinte anos: dez de guerra, dez de viagem. Quando chega, é irreconhecível, e deve ganhar o reconhecimento: de Telémaco, da ama Euricleia que o identifica pela cicatriz, do cão Argos que morre depois de o ver, de Penélope que o testa através do enigma da cama construída sobre uma oliveira viva. Estes reconhecimentos progressivos dizem algo preciso sobre a identidade: não basta apresentar-se, é preciso ser verificado por quem nos conheceu antes. Penélope, frequentemente reduzida a figura da espera paciente, é na realidade a mente mais aguda do poema: a sua teia desfeita cada noite é um ato de resistência ativa, e o teste da cama é uma forma de epistemologia prática.
A Odisseia é o texto fundador do romance de regresso: qualquer narrativa sobre quem volta de uma longa ausência traz em si esta estrutura. Joyce usou-a para construir o Ulisses, ambientando um dia de Leopold Bloom em Dublin como paralelo sistemático do poema homérico. Mas a Odisseia sobrevive também sem estas mediações: a cena de Ulisses que chora escondendo-se dos Feaces enquanto um aedo canta as gestas da guerra de Troia, chora pela sua própria história narrada por outro, é uma das imagens mais densas da literatura clássica, e contém em embrião o problema do narrador não fiável que o romance moderno tornou central.
Eça de Queirós foi processado pelo Crime do Padre Amaro mas absolvido — o escândalo lançou-o à fama.