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A Ilustre Casa de Ramires
Eça de Queirós
1900 · 350 págs.

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A Ilustre Casa de Ramires

de Eça de Queirós
Ano1900
Páginas350
Língua orig.Português
GéneroRomance
Leitura~10h
LicençaDomínio público
Tempo de leitura estimado
A velocidade média · 350 páginas
10h
aprox.

Sobre o livro

A Ilustre Casa de Ramires foi publicado em 1900, o último romance que Eça de Queirós completou em vida. Gonçalo Mendes Ramires, fidalgote da Torre de Santa Ireneia, em Oliveira de Azeméis, é o descendente de uma família nobre com oito séculos de história, mas a sua existência quotidiana é a de um homem de classe média endividado que precisa de um mandato parlamentar para resolver os problemas económicos. Gonçalo está a escrever uma novela histórica sobre os seus antepassados medievais, e o romance intercala capítulos dessa novela, cheia de gestos heróicos e de linguagem arcaizante, com a vida contemporânea de Gonçalo, onde os mesmos gestos são sempre adiados, atenuados ou substituídos por conveniência política. A ironia desta estrutura paralela, o herói de papel que o herói real nunca consegue ser, é o mecanismo central do livro.

Eça usa Gonçalo para examinar o que a geração do Ultimatum de 1890 fez à identidade cultural portuguesa: a humilhação nacional produzida pelo ultimato britânico tinha relançado o debate sobre o declínio de Portugal, e A Ilustre Casa de Ramires é uma resposta literária a esse debate. Mas Eça não responde com patriotismo: responde com análise. Gonçalo é Portugal, a tradição gloriosa que serve para justificar o presente medíocre em vez de o interrogar.

Temáticas e significado

A estrutura do romance, com a novela medieval intercalada na narrativa contemporânea, não é um ornamento formal: é o argumento. Cada vez que Gonçalo escreve um episódio em que o ancestral Tructesindo age com brutali­dade honrada e determinação sem hesitação, o capítulo seguinte mostra Gonçalo a ceder perante o cacique político, a adiar um confronto necessário, a aceitar um compromisso que o envergonha. Esta repetição não é mecânica: Eça varia os contextos e os graus de cedência de modo a que o padrão se torne visível sem se tornar esquemático.

A viagem final de Gonçalo para África, onde acaba por prosperar e por comportar-se com a decisão que a vida em Portugal nunca lhe exigiu, é o momento mais ambíguo do romance. Pode ser lida como uma confirmação do potencial individual de Gonçalo, que precisava de um ambiente sem as amarras da tradição e da política local para se realizar, ou como uma crítica implícita à ideia de que Portugal só produz energia fora de si mesmo. Eça deixa as duas leituras em aberto, o que é uma posição mais honesta do que qualquer conclusão patriótica ou pessimista.

Por que ler hoje?

A Ilustre Casa de Ramires é o romance de Eça que mais diretamente trata da relação entre o passado histórico e a identidade nacional, e esta relação não ficou resolvida com o século XIX. A pergunta sobre o que fazer com uma tradição gloriosa que o presente não consegue continuar, se a celebrar como consolo, se a usar como exigência, ou se a reconhecer como ilusão produtiva, é uma pergunta que qualquer cultura com um passado de grandeza e um presente de dificuldade continua a colocar. A forma como Eça a colocou, com ironia e sem ressentimento, continua a ser um modelo de como a literatura pode tratar questões nacionais sem as reduzir a propaganda.

📚 Sabia que…?

Júlio Dinis morreu de tuberculose aos 31 anos; os seus romances foram escritos em menos de uma década.