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A Mão e a Luva
Machado de Assis
1874 · 180 págs.

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A Mão e a Luva

de Machado de Assis
Ano1874
Páginas180
Língua orig.Português
GéneroRomance
Leitura~5h
LicençaDomínio público
Tempo de leitura estimado
A velocidade média · 180 páginas
5h
aprox.

Sobre o livro

A Mão e a Luva foi publicado em 1874, o segundo romance de Machado de Assis e o primeiro em que a ironia machadiana começa a organizar-se como sistema e não apenas como traço estilístico. Guiomar, jovem de origem humilde mas inteligência e ambição acima da média, vive como protegida da baronesa inglesa Mrs. Oswald. Três homens a cortejam: Estevão, jovem romântico e sensível; Luís Alves, advogado pragmático em ascensão social; e Hunter, sobrinho da baronesa. Guiomar escolhe Luís Alves, e o romance é a demonstração desta escolha, não a sua justificação moral.

A estrutura narrativa de A Mão e a Luva é construída como um argumento: cada capítulo apresenta uma peça da análise do caráter de Guiomar e das suas relações com os três pretendentes. Machado não esconde a lógica de Guiomar, não a apresenta como calculista ou como vítima: apresenta-a como alguém que sabe o que quer e que escolhe o meio mais eficiente de o obter. Esta clareza analítica sobre uma protagonista feminina não sentimental era invulgar na ficção brasileira de 1874.

Temáticas e significado

O título refere-se à compatibilidade entre Guiomar e Luís Alves, que se encaixam como mão e luva: não é uma metáfora de amor romântico mas de adequação funcional. Machado distingue explicitamente entre o amor que Estevão sente, exaltado e inútil para os propósitos de Guiomar, e a relação que ela constrói com Luís Alves, baseada no reconhecimento mútuo de capacidades e objetivos. Esta distinção não é uma crítica ao amor romântico nem uma celebração do cálculo: é uma observação sobre como as pessoas inteligentes escolhem os seus parceiros quando têm clareza sobre o que procuram.

A baronesa Mrs. Oswald, figura benevolente mas também instrumental na trajetória de Guiomar, permite a Machado explorar a posição das mulheres que dependem da proteção de outras mulheres mais poderosas. Esta rede de relações femininas, em que a generosidade e o interesse se misturam sem se excluir, é mais sofisticada do que o simples retrato da patrona e da protegida.

Por que ler hoje?

A Mão e a Luva é o romance em que se pode estudar Machado de Assis no momento em que está a encontrar o seu método. A ironia já está presente, a análise psicológica precisa já está presente, mas o estilo ainda não tem a concentração das Memórias Póstumas ou de Dom Casmurro. Ler este romance antes dos dois grandes livros do período maduro de Machado é perceber como um escritor constrói progressivamente os instrumentos que os seus melhores textos pressupõem.

A narrativa de A Mão e a Luva tem a particularidade de nunca julgar Guiomar pelos seus cálculos: Machado apresenta-os como o produto de uma inteligência que aprendeu a operar dentro dos limites do que o seu mundo lhe permite. Numa sociedade em que as mulheres dependiam inteiramente do casamento para a segurança económica, a escolha racional de Guiomar não é cinismo: é sobrevivência com lucidez. Esta distinção é o que separa o romance de qualquer leitura moralizante sobre a protagonista.

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