✓ 100% legal e gratuito: Domínio público. Fonte: Project Gutenberg. Sem registo.
Esta obra pertence ao domínio público — os direitos de autor expiraram. Fonte: Project Gutenberg. Descarregar é 100% legal e sem registo.
A Montanha Mágica foi publicada por Thomas Mann em 1924, dez anos após o começo da redação, interrompida pela Primeira Guerra Mundial. Hans Castorp, jovem engenheiro hamburgués, visita o seu primo num sanatório de tuberculosos nos Alpes suíços planeando ficar três semanas; fica sete anos. O sanatório de Davos torna-se a metáfora de uma Europa que, isolada do tempo histórico quotidiano, debate as suas contradições filosóficas enquanto a catástrofe da guerra se aproxima. As duas figuras intelectuais principais, o humanista liberal Settembrini e o jesuíta reacionário Naphta, disputam a alma de Hans Castorp em diálogos que são simultaneamente teatro de ideias e análise da crise da cultura europeia pré-guerra.
A montanha mágica é uma meditação sobre a doença como estado de exceção que permite ver com clareza o que a saúde, entendida como normalidade funcional, esconde. Os doentes do sanatório têm tempo que os saudáveis lá em baixo não têm, e esse tempo não produz sabedoria mas uma forma de atenção exacerbada que pode ser lúcida ou delirante. Hans Castorp não é um protagonista convencional: é alguém deliberadamente mediano que funciona como superfície de reflexão para as ideias dos que o rodeiam. Mann estava a escrever sobre a Alemanha e sobre a Europa do período que viria, e a escolha de um protagonista sem ideias fortes é a escolha de alguém que queria descrever a sedução da mediocridade pelas ideologias totais, o modo como uma pessoa sem convicções definidas pode ser atraída por qualquer sistema suficientemente coerente.
A Montanha Mágica é um romance que recompensa a leitura lenta pelo mesmo motivo que a montanha recompensa a permanência: a compreensão cresce com o tempo de exposição. Os debates entre Settembrini e Naphta sobre o humanismo, o progresso, a morte e o poder não são diálogos históricos encerrados em 1924: são formulações de tensões que o século XX concretizou em formas que Mann não podia prever mas cujas raízes filosóficas descreveu com uma precisão que qualquer leitor do século XXI reconhece como pertinente.
A estrutura do romance em torno do sanatório como microcosmo da Europa é o que torna A Montanha Mágica uma obra que vai muito além do retrato de um período histórico específico. O sanatório de Davos é uma bolha isolada do tempo produtivo, onde as ideias têm tempo e espaço para se desenvolver sem as urgências do mundo exterior. Mann usou este isolamento como dispositivo para concentrar, num único lugar e numa única narrativa, os debates filosóficos, políticos e espirituais que a Europa estava a ter consigo mesma nas décadas que antecederam a Primeira Guerra. A chegada da guerra, que encerra o romance e dissolve o microcosmo do sanatório, não é apenas um desfecho narrativo: é a demonstração de que as ideias que ali se debateram tinham consequências reais que o isolamento adiou mas não evitou.
Dostoiévski passou quatro anos na Sibéria antes de escrever os romances que o tornaram famoso.