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A Morgadinha dos Canaviais
Júlio Dinis
1868 · 320 págs.

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A Morgadinha dos Canaviais

de Júlio Dinis
Ano1868
Páginas320
Língua orig.Português
GéneroRomance
Leitura~9h
LicençaDomínio público
Tempo de leitura estimado
A velocidade média · 320 páginas
9h
aprox.

Sobre o livro

A Morgadinha dos Canaviais foi publicado em 1868 por Júlio Dinis, o pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, médico portuense que morreu de tuberculose em 1871 com apenas trinta e um anos. O romance narra o regresso de Henrique de Souselas à quinta da família, no Minho, onde reencontra a sociedade rural que abandonou ao partir para Lisboa em busca de uma vida mais sofisticada. Madalena, a morgadinha do título, filha do proprietário vizinho, é uma jovem de formação intelectual sólida e de caráter independente que não se deixa impressionar pela elegância citadina de Henrique. A transformação de Henrique, que aprende a ver o valor do que tinha desprezado, é o núcleo narrativo do romance.

Júlio Dinis é o romancista português que mais sistematicamente usou a ficção para argumentar a favor de uma reforma da mentalidade social através da educação e do trabalho honesto. Os seus romances não são panfletos: são narrativas com personagens individualizados em que as teses surgem como consequências das ações e não como declarações dos narradores. Esta disciplina formal, rara na ficção portuguesa da época, é o que dá ao seu trabalho uma eficácia que os romancistas de tendência mais explicitamente didática não têm.

Temáticas e significado

A Morgadinha dos Canaviais é um romance sobre a superioridade do mérito sobre o estatuto, da substância sobre a aparência, da vida ativa sobre o ócio contemplativo. Henrique parte de Lisboa convencido de que a vida rural é inferior à vida urbana e regressa convencido do contrário, mas esta conversão não é sentimental: é o resultado de um processo de observação e de reconhecimento que Dinis descreve com rigor e sem melodrama.

Madalena é uma das protagonistas femininas mais completas da ficção portuguesa do século XIX: inteligente, lida, capaz de juízo próprio sobre questões intelectuais e morais, e não disposta a aceitar um pretendente apenas porque este tem maneiras e dinheiro. A sua resistência a Henrique é também uma resistência ao tipo de sedução superficial que a ficção romântica costumava recompensar com o casamento final. Dinis recompensa-a com um homem que se tornou merecedor dela, o que é uma exigência diferente.

Por que ler hoje?

Os romances de Júlio Dinis são os textos da ficção portuguesa oitocentista que mais facilmente se leem hoje sem necessidade de contextualização histórica pesada: os seus problemas são imediatamente reconhecíveis, a sua língua é moderna e elegante, e as suas personagens têm uma especificidade que as impede de funcionar apenas como tipos. A Morgadinha dos Canaviais é o melhor ponto de entrada nesta obra breve e coerente, e um dos poucos romances portugueses do século XIX em que o humor e a seriedade coexistem sem que nenhum cancele o outro.

Júlio Dinis morreu antes de poder desenvolver a veia crítica que os seus romances mostram em germe, e este facto histórico torna A Morgadinha dos Canaviais uma obra que se lê também como promessa não cumprida. O que existe é suficientemente coerente e suficientemente bem executado para que a leitura seja uma experiência completa. Mas quem imagina o que Dinis teria escrito com mais décadas de trabalho tem razão em lamentar que a tuberculose tenha interrompido uma trajetória que estava apenas a começar a realizar as suas possibilidades.

📚 Sabia que…?

Voltaire foi preso na Bastilha duas vezes e exilado em Inglaterra durante três anos.