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A Morgadinha dos Canaviais foi publicado em 1868 por Júlio Dinis, o pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, médico portuense que morreu de tuberculose em 1871 com apenas trinta e um anos. O romance narra o regresso de Henrique de Souselas à quinta da família, no Minho, onde reencontra a sociedade rural que abandonou ao partir para Lisboa em busca de uma vida mais sofisticada. Madalena, a morgadinha do título, filha do proprietário vizinho, é uma jovem de formação intelectual sólida e de caráter independente que não se deixa impressionar pela elegância citadina de Henrique. A transformação de Henrique, que aprende a ver o valor do que tinha desprezado, é o núcleo narrativo do romance.
Júlio Dinis é o romancista português que mais sistematicamente usou a ficção para argumentar a favor de uma reforma da mentalidade social através da educação e do trabalho honesto. Os seus romances não são panfletos: são narrativas com personagens individualizados em que as teses surgem como consequências das ações e não como declarações dos narradores. Esta disciplina formal, rara na ficção portuguesa da época, é o que dá ao seu trabalho uma eficácia que os romancistas de tendência mais explicitamente didática não têm.
A Morgadinha dos Canaviais é um romance sobre a superioridade do mérito sobre o estatuto, da substância sobre a aparência, da vida ativa sobre o ócio contemplativo. Henrique parte de Lisboa convencido de que a vida rural é inferior à vida urbana e regressa convencido do contrário, mas esta conversão não é sentimental: é o resultado de um processo de observação e de reconhecimento que Dinis descreve com rigor e sem melodrama.
Madalena é uma das protagonistas femininas mais completas da ficção portuguesa do século XIX: inteligente, lida, capaz de juízo próprio sobre questões intelectuais e morais, e não disposta a aceitar um pretendente apenas porque este tem maneiras e dinheiro. A sua resistência a Henrique é também uma resistência ao tipo de sedução superficial que a ficção romântica costumava recompensar com o casamento final. Dinis recompensa-a com um homem que se tornou merecedor dela, o que é uma exigência diferente.
Os romances de Júlio Dinis são os textos da ficção portuguesa oitocentista que mais facilmente se leem hoje sem necessidade de contextualização histórica pesada: os seus problemas são imediatamente reconhecíveis, a sua língua é moderna e elegante, e as suas personagens têm uma especificidade que as impede de funcionar apenas como tipos. A Morgadinha dos Canaviais é o melhor ponto de entrada nesta obra breve e coerente, e um dos poucos romances portugueses do século XIX em que o humor e a seriedade coexistem sem que nenhum cancele o outro.
Júlio Dinis morreu antes de poder desenvolver a veia crítica que os seus romances mostram em germe, e este facto histórico torna A Morgadinha dos Canaviais uma obra que se lê também como promessa não cumprida. O que existe é suficientemente coerente e suficientemente bem executado para que a leitura seja uma experiência completa. Mas quem imagina o que Dinis teria escrito com mais décadas de trabalho tem razão em lamentar que a tuberculose tenha interrompido uma trajetória que estava apenas a começar a realizar as suas possibilidades.
Voltaire foi preso na Bastilha duas vezes e exilado em Inglaterra durante três anos.