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A Relíquia
Eça de Queirós
1887 · 280 págs.

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A Relíquia

de Eça de Queirós
Ano1887
Páginas280
Língua orig.Português
GéneroRomance
Leitura~8h
LicençaDomínio público
Tempo de leitura estimado
A velocidade média · 280 páginas
8h
aprox.

Sobre o livro

A Relíquia foi publicada em 1887 e é o romance de Eça de Queirós que mais diretamente trata da hipocrisia religiosa como mecanismo de mobilidade social. Teodorico Raposo, sobrinho e herdeiro esperado de uma tia beata de Lisboa, finge devoção para garantir a herança enquanto mantém em segredo uma vida de prazeres. Quando a tia o manda a Jerusalém para trazer uma relíquia sagrada, Teodorico regista o sonho de uma viagem ao tempo de Jesus Cristo, narrado na primeira parte do livro, e traz por engano na bagagem um objeto comprometedor que destrói a sua reputação perante a tia. O livro tem uma estrutura em dois planos, o sonho da Palestina do século I e a Lisboa do século XIX, que Eça usa para um jogo de comparações implícitas entre o Cristo histórico e a devoção lisboeta contemporânea.

Temáticas e significado

A Relíquia é, entre os romances de Eça, aquele em que a crítica anticlerical é mais explícita e também mais refinada. A tia Patrocínio não é uma hipócrita calculada: é alguém cuja fé, genuína a seu modo, se transformou num instrumento de controlo doméstico tão eficaz que ela própria não distingue a devoção do poder. Teodorico não é um filho pródigo que se arrepende: é alguém que aprendeu a usar a religião como linguagem social antes de perceber que a linguagem o tinha capturado. A parte do sonho, onde Eça imagina o ambiente de Jerusalém sob Pilatos com uma precisão que deve muito à pesquisa histórica da época, não é um desvio do tema: é o espelho em que a devoção lisboeta se vê a si mesma sem o reconhecer. Jesus aparece no sonho como figura humana específica, e este humanismo histórico já antecipava a opção que Saramago levaria às últimas consequências um século depois.

Por que ler hoje?

A Relíquia é o romance de Eça mais facilmente acessível a leitores que não conhecem a Lisboa do século XIX: o esquema narrativo de um impostor que quer herdar é universal o suficiente para funcionar sem notas, e o humor de Eça neste livro é mais evidente do que em O Crime do Padre Amaro ou em Os Maias. A secção do sonho é uma das raras incursões da ficção realista portuguesa no registro da fantasia histórica, e a sua qualidade cinematográfica, o modo como Eça compõe as cenas com uma atenção à luz e ao espaço que prefigura o olhar da câmara, justifica a leitura independentemente da trama principal.

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