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Amor de Perdição foi escrito por Camilo Castelo Branco em quinze dias, em 1862, enquanto estava preso na cadeia da Relação do Porto por adultério. Este dado biográfico, que o próprio Camilo usou como prefácio do livro, não é irrelevante para a leitura: o romance é a história verídica de um seu parente, Simão Botelho, estudante de Coimbra que se apaixona por Teresa de Albuquerque, filha de uma família inimiga, e que morre deportado para África depois de uma sequência de violência, prisão e recusa de qualquer compromisso com as convenções sociais. Teresa, proibida pelo pai de qualquer contacto com Simão, acompanha-o até ao porto de embarque e morre poucas horas depois. A narrativa tem a velocidade e a febre emocional de quem escreve sob pressão e com material diretamente biográfico.
Amor de Perdição é o romance português que mais plenamente realizou os pressupostos do romantismo: o amor como força que transcende e destrói a ordem social, os amantes como vítimas de uma estrutura de honra familiar que não reconhece a autonomia individual, e a morte como única resolução possível para uma paixão que o mundo não acolhe. O que distingue o livro da produção romântica europeia contemporânea é a dimensão de crítica social que Camilo não consegue nem quer esconder: as famílias que destroem os amantes não são simplesmente más, são estruturas de classe que funcionam exactamente como devem funcionar segundo as regras do seu próprio interesse. Simão é um produto da sua classe que tenta recusar a lógica que o produziu, e essa recusa é o que o torna herói romântico e ao mesmo tempo impossível como figura social. Mariana, a filha do carcereiro que ama Simão sem esperança e que se afoga quando ele embarca, é a personagem moralmente mais clara do livro e a menos celebrada pela tradição de leitura.
Amor de Perdição é um dos textos fundadores do imaginário amoroso da cultura portuguesa, e a sua influência sobre a representação do amor impossível na música, no cinema e na ficção subsequente é difícil de sobreestimar. Lê-lo diretamente, antes de qualquer versão adaptada, é perceber de onde vêm certas convenções emocionais que se tornaram tão familiares que parecem naturais. A velocidade da prosa de Camilo, que não tem a elegância de Eça mas tem uma urgência que a elegância por vezes esconde, faz do livro uma leitura que não cansa apesar da intensidade do drama.
Charlotte Brontë publicou Jane Eyre sob o pseudónimo Currer Bell para evitar o preconceito contra autoras.