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Anna Karênina foi publicada em fascículos entre 1875 e 1877 na revista O Mensageiro Russo, e Tolstói trabalhou no texto durante quatro anos. O romance segue duas tramas paralelas deliberadamente contrastantes: a de Anna Karênina, que abandona o marido Karênin para fugir com o conde Vrónski, e a de Levin, proprietário rural que procura um sentido para a sua vida através do trabalho agrícola, do casamento com Kiti e de uma busca espiritual que ocupa as últimas páginas do romance. A epígrafe, A mim a vingança, eu recompensarei, atribuída a Deus na Epístola aos Romanos, produziu décadas de debate sobre se Tolstói pretendia declarar o julgamento divino sobre Anna ou simplesmente citar a lógica da vingança como força que governa a sociedade burguesa.
A destruição de Anna não é produzida por uma sociedade que a condena, embora a sociedade a condene: é produzida por uma transformação psicológica que Tolstói descreve com a precisão de um clínico. Os céus progressivamente deformados, os rostos de desconhecidos que lhe parecem monstruosos, cada gesto de Vrónski que se torna prova de indiferença: Tolstói usa o estilo indireto livre para levar o leitor para dentro de uma mente que se desintegra, e a dificuldade de sair desse ponto de vista subjetivo impede qualquer julgamento moral simples sobre a personagem. A trama de Levin, que muitos leitores saltam, é o contrapeso necessário: Levin não encontra respostas filosóficas às questões sobre a vida e sobre a morte, mas chega a uma forma de aceitação prática através do contacto direto com a terra e com as pessoas que a trabalham. As duas tramas do romance são duas respostas possíveis à mesma questão, e Tolstói não declara qual é a correta.
Anna Karênina é frequentemente reduzida a história de amor trágico, o que obscurece a sua dimensão analítica sobre a estrutura psicológica do ciúme. Tolstói descreve como o ciúme de Anna não é produzido por provas reais mas por um sistema interpretativo que transforma cada dado em confirmação da sua hipótese: Vrónski sorri, é prova de indiferença; Vrónski está sério, é prova de cálculo frio. Esta lógica, em que o sistema fechado da interpretação paranoide não admite refutações, é descrita com uma exatidão que a psicologia cognitiva do século XX formalizaria décadas mais tarde. A trama de Levin, com a sua busca de uma vida significativa fora das categorias intelectuais, continua a ser a contribuição mais pessoal de Tolstói ao romance.
Balzac bebia cinquenta xícaras de café por dia durante os períodos de escrita intensa.