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Guerra e Paz foi publicado em seis volumes entre 1865 e 1869, depois de anos de trabalho durante os quais Tolstói reescreveu o texto múltiplas vezes e o viu mudar radicalmente de caráter: iniciado como romance sobre os decabristas, deslocou-se progressivamente para a guerra napoleónica de 1812. Tolstói recusava-se a chamar ao livro romance: não era história nem epopeia nem crónica, e não queria ser encaixado nas categorias dos géneros europeus. O texto conta cerca de quinhentas e sessenta personagens, entre as quais dezenas de personagens históricas reais, a quem Tolstói atribui diálogos e pensamentos. Os interlúdios filosóficos intercalados na narração, onde Tolstói expõe diretamente a sua teoria da história, dividiram os leitores desde sempre: alguns saltam-nos, outros consideram-nos o núcleo da obra.
A tese filosófica de Guerra e Paz é a de que a história não é produzida pelas decisões dos grandes homens mas por uma soma de forças individuais minúsculas e imprevisíveis que escapam a qualquer planificação estratégica. Napoleão, no romance, não compreende as batalhas que julga dirigir: dá ordens que não chegam à frente a tempo, interpreta os movimentos das tropas com base em mapas que não correspondem à realidade do terreno, e celebra vitórias que as suas tropas ainda não ganharam. Kutúzov, pelo contrário, tem sucesso precisamente porque não tenta controlar o incontrolável: dorme durante os conselhos de guerra, espera que os eventos se desenvolvam por si mesmos. Esta filosofia anti-heroica da história é argumentada narrativamente antes de o ser nos interlúdios teóricos: é a própria estrutura do romance, com a sua multiplicação de pontos de vista, que demonstra que nenhum indivíduo pode abarcar a totalidade dos acontecimentos.
Guerra e Paz é frequentemente adiado pela sua extensão, mas quem enfrenta o texto descobre que a dificuldade é menor do que a reputação faz crer: as personagens são individuais e reconhecíveis, as cenas de batalha estão entre as mais precisas e menos retóricas da literatura, e a vida quotidiana das famílias aristocráticas russas é descrita com uma atenção ao detalhe que não requer nenhuma preparação histórica prévia. A simultaneidade com que Tolstói trata o movimento da História e a textura dos dias ordinários é o que torna o romance irreproduzível: não se encontra noutro lugar esta combinação de amplitude e de precisão no detalhe.
Camões escreveu partes de Os Lusíadas durante o naufrágio no delta do Mekong.