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O Vermelho e o Negro foi publicado em 1830, com o subtítulo Crónica do Século XIX, e é o primeiro grande romance psicológico da literatura francesa. Julien Sorel, filho de um serrador da Franche-Comté, é um jovem de inteligência excecional e de orgulho feroz que tenta ascender socialmente num mundo que fechou aos talentos sem origem o caminho das armas napoleónicas. O vermelho do título é o uniforme militar que a sua geração não pode vestir; o negro é o hábito eclesiástico que substitui a espada como via de acesso ao poder. Julien torna-se preceptor dos filhos do senhor de Rênal, apaixona-se por Madame de Rênal, parte para o seminário de Besançon, chega a Paris como secretário do marquês de La Mole, seduz a filha do marquês Mathilde, e arruína tudo no momento em que parecia estar a chegar ao topo.
Stendhal escreveu o romance em poucas semanas, em 1829, depois de ler nos jornais o caso de um jovem da sua região que tinha sido guilhotinado por ter tentado matar a mulher de um antigo patrão. Mas O Vermelho e o Negro não é um roman à clef nem um relato fiel: é uma análise, elaborada ao longo de setecentas páginas, da psicologia de um personagem que Stendhal constrói como o tipo do jovem de talento sem privilégio na França da Restauração.
O mecanismo psicológico central de Julien Sorel é o que Stendhal chamou a cristalização: a tendência para atribuir ao objeto do desejo qualidades que excedem o que realmente tem, a partir de um processo imaginativo que o próprio desejo alimenta. Julien não ama Madame de Rênal nem Mathilde de modo simples: constrói uma imagem de cada uma delas que serve as suas necessidades de afirmação, e quando a realidade contradiz essa imagem reage com uma intensidade que nenhuma das duas entende. Esta estrutura psicológica, que Stendhal descreveu no tratado Do Amor, é dramatizada em O Vermelho e o Negro com uma precisão que antecipa em décadas os procedimentos da análise psicológica sistemática.
A última parte do romance, em que Julien comete o ato que o destrói e depois recusa qualquer saída que possa poupar a vida, é a mais perturbante e a menos compreendida. Julien não é vítima de um impulso incontrolável: age com plena consciência do que faz e das consequências. A recusa de se salvar, perante os esforços de Madame de Rênal que o perdoou, é a afirmação de um orgulho que prefere morrer a dever a vida a uma clemência que não reconhece o seu valor.
O Vermelho e o Negro é o romance que colocou a análise da mobilidade social como problema literário central, e a sua pertinência não diminuiu com a passagem do tempo. A questão de como um indivíduo de talento sem origem se move numa sociedade que distribui as oportunidades por critérios que não reconhecem o talento, que Stendhal formulou para a França de 1830, pode ser reformulada para qualquer época e qualquer lugar. O que permanece específico e insubstituível é a precisão com que Stendhal descreve o interior de Julien Sorel: um interior que nunca se reduz ao tipo, porque o tipo é sempre mais simples do que qualquer pessoa real.
Dostoiévski passou quatro anos na Sibéria antes de escrever os romances que o tornaram famoso.