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Os Irmãos Karamázov, último romance de Fiódor Dostoiévski, foi publicado em fascículos entre 1879 e 1880, e o autor morreu poucos meses depois da publicação em volume. O romance é construído em torno de um parricídio: Fiódor Karamázov, pai dissoluto e sem escrúpulos, é assassinado. Os três filhos legítimos, Dmitri, o sensual; Ivan, o intelectual; e Aliocha, o noviço, são todos, de formas diferentes, suspeitos ou corresponsáveis. O verdadeiro assassino é Smerdiákov, o filho ilegítimo, que age segundo a lógica filosófica de Ivan. Dostoiévski tinha planeado este livro como o primeiro de uma série mais longa; o romance que lemos é portanto uma primeira parte sem continuação.
O centro filosófico do romance é o diálogo entre Ivan e Aliocha conhecido como O Grande Inquisidor: Ivan imagina o regresso de Cristo a Sevilha no século XVI e a sua prisão pela Inquisição. O Grande Inquisidor explica-lhe que a Igreja corrigiu o erro de Cristo ao oferecer aos homens não a liberdade, que não são capazes de suportar, mas pão, milagre e autoridade. É uma das defesas do ateísmo mais rigorosas produzidas pela literatura mundial, e Dostoiévski coloca-a na boca de uma personagem que duvida, num romance que defende a fé. A resposta de Aliocha não é argumentativa: abraça o irmão. Dostoiévski responde à lógica com o gesto, não com um contraargumento. A personagem de Dmitri, condenado por um crime que não cometeu mas que se sente culpado de tudo, é a representação mais aguda do sentido de culpa coletivo que Dostoiévski considerava uma característica da alma russa.
Os Irmãos Karamázov é o romance do século XX escrito no século XIX: Freud, Camus, Sartre e Wittgenstein citaram-no como texto de referência para as suas próprias reflexões. A pergunta que Ivan coloca, sobre se a dor de uma só criança inocente pode ser justificada por qualquer harmonia futura, não é respondida no romance. É simplesmente confrontada com algo que não é um argumento. Quem lê Os Irmãos Karamázov pode fazê-lo como romance policial, como drama familiar, como ensaio filosófico ou como reflexão espiritual: nenhuma destas leituras é errada, e nenhuma é suficiente por si mesma.
Júlio Dinis morreu de tuberculose aos 31 anos; os seus romances foram escritos em menos de uma década.