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Os Miseráveis de Victor Hugo foram publicados em 1862 em cinco volumes, depois de décadas de trabalho intermitente. Hugo tinha começado o romance nos anos quarenta, abandonado-o, e retomado durante o exílio em Guernsey, onde se refugiara depois da oposição a Napoleão III. Jean Valjean, condenado a dezanove anos de trabalhos forçados por ter roubado um pão, sai do presídio transformado pelo encontro com o bispo Myriel, que em vez de o denunciar pelo roubo dos castiçais de prata lhe mente perante os gendarmes e lhos oferece. Este gesto inicial de graça gratuita estrutura todo o romance: Valjean passa as décadas seguintes a tentar merecer essa confiança, perseguido pelo inspetor Javert, que encarna a lei como princípio absoluto sem exceções.
O romance entrelaça à história de Valjean longas digressões sobre a batalha de Waterloo, sobre os esgotos de Paris, sobre o calão dos subúrbios, que constituem a argumentação política do livro. Hugo não se limita a contar histórias de indivíduos pobres: quer demonstrar que a miséria não é um acidente moral mas uma infraestrutura. A cena em que Gavroche, o miúdo de rua, dorme no interior de um elefante de gesso monumental abandonado é a metáfora mais precisa desta tese: a cidade produz os seus rejeitados e depois ignora-os, e a sobrevivência de quem foi excluído é um ato de engenho quotidiano. A trajetória de Javert, personagem de coerência ideológica absoluta que se suicida quando não consegue conciliar a lei com o gesto de Valjean que o poupou, é o momento em que Hugo demonstra que a legalidade sem graça produz inevitavelmente o seu próprio beco sem saída.
As adaptações teatrais e cinematográficas de Os Miseráveis construíram um imaginário emocional poderoso que tende a obscurecer o que torna específico o romance de Hugo: a tese, documentada com material histórico, de que a sociedade produz ativamente os seus criminosos ao negar-lhes as condições de uma vida humana. Ler o romance completo, incluindo as digressões que as versões reduzidas eliminam, significa ler um dos requisitórios mais argumentados do século XIX sobre o que hoje chamaríamos injustiça estrutural. A extensão do texto é parte do argumento: Hugo quer que o leitor sinta o peso da acumulação, a sistematicidade da miséria.
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