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Quincas Borba foi publicado em folhetins entre 1886 e 1891 e em volume em 1892. É o segundo romance do período maduro de Machado de Assis, escrito entre Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, e partilha com eles a ironia sistemática e o narrador que nunca permite ao leitor um ponto de apoio moral estável. O protagonista é Rubião, homem de Minas Gerais que herda a fortuna de Quincas Borba, filósofo excêntrico criador do Humanitismo, a filosofia parodística que Machado tinha apresentado em Memórias Póstumas. Rubião muda-se para o Rio de Janeiro, onde a sua riqueza o torna alvo de Cristiano Palha e da sua mulher Sofia, que exploram a generosidade ingénua do novo-rico enquanto ascendem socialmente à sua custa.
Quincas Borba é o romance de Machado que mais diretamente analisa o funcionamento da ambição social como sistema. Cristiano Palha é uma das personagens mais precisamente construídas da ficção brasileira: não é um vilão porque não tem intenção perversa autónoma, é alguém que aplica de forma eficiente as regras do ambiente social em que se move. Sofia, que Rubião ama sem esperança e sem nunca poder declarar esse amor, tem uma consciência muito clara da sua posição como mulher cujo valor social depende da sua utilidade para o marido, e esta consciência não a redime mas explica a lógica das suas escolhas. O Humanitismo, que o romance herda do livro anterior, funciona aqui não como sátira abstrata mas como diagnóstico do modo como os vencedores justificam o seu êxito como conformidade à lei natural. Rubião, que enlouquece no final acreditando ser Napoleão, é o único personagem honesto do livro precisamente porque a loucura o liberta da necessidade de fingir que as regras do jogo são justas.
Quincas Borba é o romance de Machado mais negligenciado pelos leitores não especializados, ofuscado pela fama de Memórias Póstumas e Dom Casmurro. Esta negligência é injusta: o livro tem uma densidade de observação social que os outros dois não têm, e a sua análise da relação entre riqueza repentina, vulnerabilidade social e exploração pelos mais adaptados é uma descrição de mecanismos que não envelheceram. Machado não precisou de esperar pelo vocabulário da sociologia para descrever o que esta chamaria depois de capital social e de violência simbólica: tinha a ironia, que cumpre a mesma função analítica sem a aparência de neutralidade científica.
Dickens começou a trabalhar numa fábrica aos doze anos depois de o pai ser preso por dívidas.