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Triste Fim de Policarpo Quaresma foi publicado em folhetins em 1911 por Lima Barreto, escritor negro carioca que viveu na margem do sistema literário do seu tempo e foi reconhecido postumamente como um dos maiores prosadores brasileiros. O protagonista é Policarpo Quaresma, major aposentado que acredita literalmente na grandeza do Brasil e que passa a vida a tentar concretizar essa grandeza em projetos específicos: aprender o tupi como língua nacional, cultivar a terra, reformar o exército. Cada projeto termina em fracasso e em humilhação, e o livro culmina com Quaresma fuzilado como conspirador durante o governo de Floriano Peixoto, precisamente pelo presidente que admirava como encarnação da força nacional.
Policarpo Quaresma é o Dom Quixote brasileiro no sentido mais preciso: alguém cujo idealismo é genuíno e cujo fracasso é produzido pela distância entre o ideal e a realidade que o própria sistema que ele ama torna sistemática. Mas Lima Barreto acrescenta ao esquema cervantino uma dimensão de crítica ao nacionalismo como ideologia que Cervantes não tinha necessidade de articular: o Brasil que Quaresma ama é uma construção retórica que a república usa para legitimar-se sem concretizar nenhum dos valores que declara. A admiração de Quaresma por Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, é a parte mais dolorosa do livro: ele não percebe que o estado que quer servir é precisamente o estado que o destruirá, porque esse estado não tem lugar para alguém que acredita literalmente nas suas próprias declarações.
Lima Barreto escreveu sobre o nacionalismo como forma de ingenuidade perigosa antes que o nacionalismo do século XX demonstrasse a sua capacidade de destruição em escala histórica. A sua posição como escritor negro e marginal em relação ao cânone literário do seu tempo deu-lhe uma perspetiva sobre o funcionamento das instituições republicanas que os seus contemporâneos do centro do sistema não tinham razões para adotar. O Triste Fim de Policarpo Quaresma é também um livro sobre o Brasil como promessa permanentemente adiada, e esta estrutura de esperança sistematicamente frustrada pelo estado é um padrão que os leitores brasileiros do século XXI reconhecem sem necessidade de analogia forçada.
Machado de Assis foi o primeiro grande romancista brasileiro a usar o narrador não fiável como instrumento central.