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Viagens na Minha Terra foi publicado em 1846, primeiro como folhetins no Jornal do Conservatório, depois em volume. Almeida Garrett descreve a viagem que fez de Lisboa a Santarém em outubro de 1843, mas o livro é muito mais do que um relato de viagem: é um ensaio sobre Portugal, uma meditação sobre a literatura, uma história de amor intercalada na narrativa, e um exercício de prosa que não tinha modelo nem precedente em português. A história de Carlos e Joaninha, a Menina dos Rouxinóis, inserida na narrativa da viagem, é um romance dentro do livro de viagens, com personagens, diálogos e um desenlace que Garrett usa para explorar as contradições do romantismo e do liberalismo que a sua geração viveu.
Garrett sabia que estava a inventar algo: os parênteses, as digressões, os comentários ao próprio ato de escrever são procedimentos que o autor usa deliberadamente para criar uma voz narrativa que se interpõe entre o leitor e a história. Esta autoconsciência literária, que a teoria literária do século XX chamaria metaficcional, não é um capricho: é a posição filosófica de alguém que desconfia das convenções do seu tempo sem ter desenvolvido ainda as categorias para as criticar sistematicamente.
O livro divide-se entre a observação da paisagem e da vida portuguesa, sempre com uma ironia que mistura afeto e irritação, e a história de Carlos e Joaninha, que é uma alegoria das escolhas políticas da geração liberal. Carlos abandona Joaninha para seguir a causa liberal, regressa transformado e já não reconhece o que deixou: a sua trajetória é a trajetória de uma geração que lutou por um ideal e descobriu, ao chegar ao poder, que o ideal e o poder são coisas diferentes. Garrett era demasiado inteligente para ser apenas um propagandista do liberalismo em que tinha participado, e as Viagens são o lugar onde essa inteligência crítica se manifesta com maior liberdade.
A prosa das Viagens é radicalmente diferente de qualquer prosa portuguesa anterior: conversacional, cheia de mudanças de tom e de registo, capaz de passar do sublime ao cómico numa única página. Garrett estava a criar a língua literária do romantismo português, mas fazia-o por oposição aos seus próprios modelos, o que produziu um texto singular que não foi realmente imitado por ninguém.
Viagens na Minha Terra é o texto fundador da prosa moderna em português, e lê-lo é perceber de onde vêm recursos que a ficção e o ensaio portugueses assumiram como naturais durante décadas. O livro é também um dos raros textos portugueses do século XIX em que a ironia não é um distanciamento defensivo mas uma forma de envolvimento crítico com o que se descreve. Garrett ama Portugal e irrita-se com Portugal na mesma frase, o que é uma posição emocional mais honesta do que a celebração ou a lamentação separadas.
Balzac escreveu mais de noventa romances e novelas ao longo de vinte anos, muitas vezes trabalhando toda a noite.